O oficial de justiça chega à empresa numa terça-feira à tarde. Entrega um mandado: o banco está cobrando na Justiça o saldo do capital de giro, com juros e multa, e a empresa tem três dias para pagar. Na mesma semana, o gerente avisa que a conta foi bloqueada e que a antecipação de recebíveis da maquininha está suspensa. A folha vence na sexta.
Esse roteiro é comum entre empresas que passam por um aperto de caixa. E a reação dos primeiros dias faz muita diferença no que vem depois: no valor final, nos bens atingidos e na capacidade de a empresa continuar operando.
Este artigo explica, sem juridiquês, o que é a execução bancária, quais são os prazos, o que o banco pode bloquear, quais defesas existem e como negociar sem parar a operação.
O que é uma execução bancária
Quando a dívida está em um documento que a lei considera “título executivo”, como a Cédula de Crédito Bancário, o banco não precisa de um processo longo para provar que o valor é devido. Ele entra direto com a execução e já pede que a empresa pague, sob pena de penhora de bens.
O Superior Tribunal de Justiça definiu, em julgamento repetitivo (Tema 576), que a Cédula de Crédito Bancário é título executivo, inclusive quando representa crédito rotativo, como conta garantida e cheque especial. Por isso a maioria das execuções contra empresas hoje vem de cédulas de capital de giro, conta garantida e renegociações.
Já o contrato de abertura de crédito em conta-corrente, sozinho, não é título executivo (Súmula 233 do STJ). Em casos assim, o banco precisa de outro tipo de ação. Saber em qual documento a cobrança está apoiada é um dos primeiros pontos da análise.
Os prazos que correm a partir da citação
- 3 dias para pagar. Depois da citação, a empresa tem três dias para pagar o valor cobrado. Se não pagar, o banco pode pedir a penhora de bens.
- 15 dias para apresentar defesa. A defesa na execução se chama embargos à execução. O prazo é de 15 dias úteis, contados da juntada do mandado de citação no processo.
- Parcelamento previsto em lei. Dentro do prazo dos embargos, a empresa pode reconhecer a dívida, depositar 30% do valor e pedir o pagamento do restante em até seis parcelas mensais, com correção e juros. É uma saída que precisa ser bem avaliada, porque ao escolher esse caminho a empresa abre mão de discutir o valor.
Perder esses prazos reduz muito as opções. Por isso a citação é o momento de agir, e não de esperar o banco ligar.
O que o banco pode bloquear
Contas da empresa. Pelo Sisbajud, o juiz pode bloquear os valores das contas do CNPJ em todos os bancos, e não só no banco credor.
Recebíveis. Valores a receber de cartão e maquininha e, em alguns casos, créditos com clientes podem ser penhorados.
Bens da empresa. Veículos, máquinas, estoque e imóveis.
Bens dos sócios avalistas. Se os sócios assinaram como avalistas ou devedores solidários, o banco pode cobrar também deles, com bloqueio de contas pessoais e penhora de bens. A execução muitas vezes já vem contra a empresa e os sócios ao mesmo tempo.
Mas há limites. A lei protege alguns bens, como os equipamentos indispensáveis ao trabalho do empresário individual e, em regra, o imóvel em que a família mora. E um bloqueio que paralisa a operação pode ser discutido no processo.
Como isso aparece em cada tipo de negócio
Comércio e varejo. O bloqueio da conta e da maquininha atinge o caixa do dia: sem dinheiro para repor estoque nem pagar fornecedores.
Indústria. Penhora de máquinas e de estoque de matéria-prima, que pode parar a linha de produção. Em geral, o valor da dívida é alto e há várias cédulas em execução ao mesmo tempo.
Serviços. Empresas que dependem de folha e de contratos recorrentes sentem o bloqueio no pagamento dos funcionários e na relação com os clientes.
Construção e prestadores para grandes clientes. Medições e faturas a receber podem ser penhoradas direto no cliente, o que expõe a situação da empresa ao contratante.
Agronegócio. Execuções de cédulas rurais, com risco sobre máquinas, safra e imóveis rurais dados em garantia.
Defesas que costumam ser analisadas
- Excesso de execução: o valor cobrado é maior do que o devido, por juros acima do contratado, encargos em duplicidade ou pagamentos que não foram descontados;
- Encargos abusivos: capitalização de juros sem previsão clara, comissão de permanência somada a outros encargos e tarifas indevidas;
- Problemas no título: documento sem os requisitos da lei, sem assinatura de quem deveria assinar ou sem o demonstrativo do débito exigido;
- Penhora indevida: bloqueio de valores ou bens protegidos por lei, ou que inviabilizam a atividade da empresa;
- Prescrição: quando o banco demora demais para cobrar ou deixa o processo parado.
Nem toda execução tem defesa forte, e cada caso depende dos documentos. Mas uma análise técnica do contrato e da planilha do banco quase sempre muda a mesa de negociação.
Negociar ou se defender? Quase sempre os dois
A execução não impede a negociação. Pelo contrário: com uma defesa bem fundamentada no processo, a empresa negocia com mais força, porque o banco passa a ter um risco real de receber menos ou de demorar mais.
Na prática, o caminho costuma combinar três frentes: proteger o caixa do dia a dia, apontar no processo o que está errado na cobrança e negociar um acordo que caiba no fluxo de caixa da empresa, com prazo e, se possível, com a troca de garantias.
O que fazer agora
- Anote a data da citação e guarde o mandado. Os prazos contam a partir dela.
- Separe os documentos: cédulas e contratos, extratos da conta da empresa, renegociações anteriores e comprovantes de pagamento.
- Levante as outras dívidas bancárias. Uma execução costuma ser seguida de outras. É melhor planejar a estratégia para todas de uma vez.
- Mapeie o caixa dos próximos 90 dias: folha, fornecedores, impostos e recebíveis. É com esse número que se negocia.
- Não esconda nem transfira bens. Além de ilegal, isso pode ser considerado fraude e piorar muito a situação da empresa e dos sócios.
Quando vale falar com um advogado
- A empresa ou os sócios foram citados em uma execução;
- A conta da empresa ou dos sócios foi bloqueada;
- Há mais de uma dívida bancária atrasada;
- O banco propôs um acordo e você não sabe se o valor é justo.
O advogado analisa o título e a planilha do banco, verifica os prazos, identifica as defesas e os bens protegidos e monta a estratégia de negociação considerando o caixa da empresa e o patrimônio dos sócios.
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Conclusão
A execução bancária é rápida e pode atingir a conta, os recebíveis e os bens da empresa e dos sócios. Mas ela tem prazos, regras e limites. Agir nos primeiros dias, organizar os documentos e analisar o que está sendo cobrado transforma uma situação de pressão em uma negociação com mais equilíbrio.
A sua empresa foi citada em uma execução do banco? Fale com a equipe da Primo & Viveiros Advogados pelo WhatsApp. Um advogado responsável vai analisar os seus contratos e explicar as alternativas possíveis.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a análise individual de um advogado.

