Uma empresa com dívidas em vários bancos vive uma rotina conhecida: cada gerente apresenta a sua proposta, cada cobrança chega com um tom de urgência e o empresário acaba decidindo pela pressão, e não por critério. O resultado costuma ser pagar quem grita mais alto e deixar para depois exatamente o contrato que representa o maior risco.
Definir a ordem de enfrentamento das dívidas é uma decisão técnica. Este artigo apresenta os critérios que usamos para organizar esse quadro.
Neste artigo
O erro de priorizar pela parcela ou pela pressão
Dois critérios intuitivos costumam guiar as decisões: o tamanho da parcela e a intensidade da cobrança. Ambos são enganosos. A parcela mais alta pode ser a de um contrato sem garantia, que em caso de inadimplência resultaria apenas em cobrança comum. Já uma parcela menor pode estar ligada a um contrato com alienação fiduciária do galpão da empresa, cuja inadimplência permite ao banco consolidar a propriedade do imóvel sem discussão prolongada.
A pressão do gerente também não indica risco jurídico. Ela indica meta comercial.
Critério 1: garantias vinculadas ao contrato
O primeiro filtro é entender o que está em jogo em cada contrato:
- Alienação fiduciária de imóvel ou veículo: em caso de inadimplência, o credor pode seguir um rito extrajudicial rápido. É normalmente o contrato de maior risco patrimonial.
- Cessão ou trava de recebíveis: o banco retém diretamente parte do faturamento, o que asfixia o caixa.
- Aval ou fiança dos sócios: o patrimônio pessoal passa a responder pela dívida da empresa.
- Sem garantia real: cartão, cheque especial e parte dos capitais de giro. A cobrança tende a ser judicial comum, com mais espaço para discussão.
Critério 2: estágio da cobrança
Contratos em dia, em atraso administrativo, protestados, ajuizados e em execução com bloqueio de valores estão em momentos completamente diferentes. Um contrato já em execução tem prazos processuais correndo e exige atuação imediata. Um contrato em atraso recente ainda permite negociação sem judicialização.
Critério 3: custo efetivo e possibilidade de revisão
Alguns contratos concentram encargos que podem ser questionados: taxas muito acima da média de mercado divulgada pelo Banco Central, capitalização não pactuada de forma clara, tarifas indevidas ou renegociações que incorporaram saldos já questionáveis. Esses contratos merecem análise antes de qualquer pagamento, porque o valor cobrado pode não corresponder ao valor devido.
Critério 4: impacto na operação
Qual dívida, se não for administrada, interrompe a atividade da empresa? A resposta costuma apontar para contratos com garantia sobre recebíveis, sobre o imóvel da sede ou sobre máquinas essenciais à produção.
Como priorizar dívidas em vários bancos
Com os quatro critérios em mãos, os contratos podem ser organizados em uma matriz simples: risco patrimonial de um lado, urgência processual do outro. Contratos com alto risco e alta urgência entram primeiro. Contratos sem garantia e sem judicialização podem, muitas vezes, aguardar uma negociação em bloco, feita em condições melhores.
Um exemplo comum: a empresa vinha priorizando o pagamento do cartão empresarial, cuja fatura era a mais alta, enquanto deixava atrasar um financiamento com alienação fiduciária do imóvel. Ao reorganizar a ordem, o imóvel foi protegido e o cartão passou a ser negociado com desconto, já que o banco não tinha garantia a executar.
O papel da negociação em bloco
Depois de definir prioridades, a negociação dos contratos remanescentes pode ser feita de forma coordenada. Bancos avaliam risco. Quando percebem que a empresa está organizada, com diagnóstico claro e assessoria jurídica, a postura na mesa costuma mudar.
Quando a judicialização faz parte da estratégia
Em alguns casos, discutir judicialmente um contrato com encargos abusivos é o que cria condições para negociar os demais. A ação revisional, bem fundamentada, não é um ato de confronto: é uma forma de estabelecer o valor efetivamente devido.
Organizar dívidas em vários bancos não é escolher quem paga primeiro. É entender o que cada contrato representa para a empresa e agir com base nisso.
Em resumo: dívidas em vários bancos pedem uma ordem de enfrentamento baseada em garantias, estágio da cobrança e impacto no caixa. Organizar dívidas em vários bancos é trabalho técnico, e quem trata dívidas em vários bancos como uma única dívida costuma pagar mais caro.
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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a análise individual do caso.


